Quase metade dos produtores de Mato Grosso já é inovadora, mas internet precária freia a transformação digital no campo

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 7 Min de leitura
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Pesquisa inédita com 1.400 produtores em 75 municípios revela o perfil tecnológico do agro mato-grossense e aponta o maior gargalo para a próxima safra.

O campo mato-grossense nunca foi avesso à tecnologia. O estado que lidera a produção de soja no Brasil e que recebeu mais de 190 mil pessoas na 14ª edição do Show Safra, em Lucas do Rio Verde, em março de 2026, vive uma transformação digital que já alcança parte significativa de suas propriedades rurais. Um estudo recente do AgriHub, em parceria com o Senar-MT, traçou o retrato mais detalhado já realizado sobre esse processo: 45% dos produtores rurais mato-grossenses já podem ser classificados como inovadores ou altamente inovadores. O dado é relevante. Mas o mesmo estudo revela o ponto de tensão que ainda limita esse avanço: o Índice de Digitalização das propriedades atingiu apenas 28 pontos, bem abaixo dos indicadores de Adoção de Tecnologias (40) e Influência (41), que medem a disposição para testar soluções e a participação em redes cooperativas.

O que isso significa na prática? O produtor quer inovar e entende os benefícios das ferramentas digitais. O obstáculo não é cultural, é estrutural. A falta de conectividade de qualidade nas zonas rurais de Mato Grosso é o principal fator que impede a transformação digital de avançar no ritmo que a produtividade do campo demanda. O levantamento foi construído a partir da análise de mais de 82 mil pontos de dados coletados junto a 1.403 produtores distribuídos em 75 municípios mato-grossenses, tornando-o um dos diagnósticos mais abrangentes já produzidos sobre inovação no agronegócio estadual.

De drones a inteligência artificial: o que está chegando nas lavouras

A edição de 2026 do Show Safra Mato Grosso mostrou, em campo aberto, o que está chegando ao produtor rural nos próximos anos. Entre as novidades que percorreram o parque tecnológico em Lucas do Rio Verde estavam aeronaves sem tripulante para pulverização e monitoramento, máquinas de alto desempenho com operação assistida por dados e plataformas de agricultura de precisão que combinam sensoriamento remoto com análise preditiva. Nessa edição, o evento estreou o Show Safra Educação, voltado a ampliar o diálogo entre o campo, o conhecimento técnico e as novas gerações de produtores e profissionais do setor.

A inteligência artificial começa a entrar de forma efetiva no ciclo produtivo do campo mato-grossense, mesmo que de forma gradual. A Fundação Chapadão, que há quase 29 anos realiza pesquisa agropecuária no norte de Mato Grosso do Sul e atende municípios da fronteira com Mato Grosso, já aplica IA no monitoramento de lavouras, mecanização e análise de dados. A instituição busca parcerias para integrar ferramentas de análise preditiva, identificação de riscos e apoio à tomada de decisão, especialmente para culturas como soja, milho e cana-de-açúcar. Os aportes estaduais destinados à Fundação chegaram a R$ 3,7 milhões na safra 2024/2025, com previsão de cerca de R$ 2,7 milhões para o ciclo 2026/2027.

A safra 2026/27 começa com incertezas climáticas e custos mais altos

Se a tecnologia avança, o contexto da safra que está sendo planejada para 2026/27 traz seus próprios desafios. Levantamentos recentes apontam que o produtor mato-grossense enfrentará custos de produção mais elevados, reflexo da combinação entre câmbio, insumos e logística. Ao mesmo tempo, as previsões climáticas para o segundo semestre indicam chuvas abaixo da média no Centro-Oeste, o que eleva o risco para culturas de verão e amplia a importância do uso de ferramentas de monitoramento e gestão de risco. Mato Grosso deve ampliar sua produção de etanol em 16% na safra 2026/27, reforçando a liderança nacional em biocombustíveis, mas o milho, que serve de matéria-prima para parte desse etanol, segue em período de volatilidade de preços no estado.

Para o agronegócio mato-grossense, a resposta a esses desafios passa cada vez mais pela tecnologia. A validação regional de cultivares, conduzida por instituições como a Fundação Chapadão, é essencial para orientar as decisões do produtor diante de cada safra. Mercados internacionais, por sua vez, exigem rastreabilidade e comprovação de boas práticas ambientais. O algodão já conta com rastreamento completo da origem, e a tendência é que soja e milho avancem nessa direção. A pressão dos compradores estrangeiros por transparência na cadeia produtiva está se tornando, na prática, um incentivo adicional à digitalização do campo.

Conectividade: o gargalo que o estado ainda precisa resolver

O estudo do AgriHub e do Senar-MT classificou os produtores mato-grossenses em cinco perfis: Céticos (18,1%), que resistem à inovação por dificuldades de infraestrutura; a maioria intermediária, que reconhece o valor das ferramentas digitais mas não consegue acessá-las plenamente; Visionários (9,1%), que antecipam tendências e influenciam vizinhos; e Entusiastas (2,4%), altamente digitalizados, que transformam suas propriedades em ambientes de experimentação permanente. A concentração de inovação ainda é desigual geograficamente, com a Região III do estado liderando o número de produtores avançados.

O maior desafio, portanto, não é convencer o produtor de que tecnologia importa. É garantir que a internet chegue com qualidade e estabilidade suficientes para que um agricultor no interior de Mato Grosso consiga operar um sistema de monitoramento de lavoura, receber dados de estação meteorológica local ou acessar uma plataforma de gestão financeira sem cair na linha a cada tentativa. O campo mato-grossense já proveu o Brasil com algumas das maiores safras da história. Com conectividade adequada, o potencial de ganho em produtividade, sustentabilidade e gestão financeira vai muito além do que os números atuais já mostram. A próxima fronteira do agro de Mato Grosso não está no solo. Está no sinal.

Fontes: Cenário MT – Estudo AgriHub/Senar-MT | Show Safra 2026 | Show Safra MT – Tecnologias no Agro | Portal do Agronegócio – Fundação Chapadão

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