Com focos de incêndio crescentes e emergência ambiental declarada pelo governo federal, Mato Grosso reforça estrutura de combate ao fogo no bioma mais ameaçado do país.
O mês de junho sempre foi um divisor de águas para o Pantanal. É nele que começa o período proibitivo para o uso e manejo do fogo no bioma, uma medida criada justamente para conter os incêndios antes que a seca de julho, agosto e setembro transforme qualquer centelha em catástrofe. Em 2026, a chegada dessa época ganhou um peso extra: dados do MapBiomas revelaram que o Pantanal registrou um aumento de 323% nas queimadas já no início do ano, com cerca de 38 mil hectares atingidos apenas em janeiro, tornando o bioma o segundo mais afetado do país naquele mês, ficando atrás somente da Amazônia. O número, fora da estação seca, acendeu um alerta para o que pode vir nos próximos meses.
A situação não é nova, mas a frequência e a intensidade dos episódios têm preocupado especialistas de forma crescente. Em 2024, junho sozinho foi responsável pelo consumo de mais de 411 mil hectares do Pantanal, segundo levantamento do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ, valor que superou até mesmo a média histórica de setembro, que costuma ser o pico dos incêndios no bioma. A repetição desse padrão fora de época, combinada com previsões de chuvas abaixo da média para o Centro-Oeste no segundo semestre de 2026, tornaram a antecipação do período proibitivo uma das principais apostas do governo estadual e federal para conter o avanço das chamas.
O que o período proibitivo significa na prática para Mato Grosso
A partir de 1º de junho, qualquer uso ou manejo do fogo no bioma Pantanal está proibido no estado de Mato Grosso. Para a Amazônia e o Cerrado, a restrição começa em julho. Essa antecipação foi uma das medidas adotadas nos últimos anos com base na lição deixada pelos grandes incêndios de 2020, quando quase 3,9 milhões de hectares do Pantanal foram destruídos. Pesquisadores estimam que 17 milhões de animais vertebrados morreram no fogo naquele ano, incluindo espécies como a anta e o tamanduá-bandeira, cujas populações despencaram cerca de dez vezes após aquele evento.
Para reforçar a resposta operacional, o governo de Mato Grosso instalou a Sala de Situação Descentralizada do Pantanal, em Poconé, voltada ao monitoramento contínuo dos focos de calor no bioma. A estrutura permite identificar e combater os focos ainda em estágio inicial, antes que se transformem em incêndios de grande proporção. O investimento estadual inclui R$ 78 milhões destinados ao Corpo de Bombeiros Militar, com foco no fortalecimento da capacidade operacional da corporação. Em 2025, os resultados foram considerados positivos: o estado registrou uma redução de 71% nas áreas atingidas pelo fogo em comparação ao ano anterior, com menos de 1% da área queimada correspondendo ao Pantanal mato-grossense.
As causas por trás dos incêndios não são um mistério
Um dos equívocos mais comuns sobre os incêndios no Pantanal é atribuí-los a um processo natural do bioma. Não são. Pesquisadores são categóricos em apontar a ação humana como a principal fonte de ignição: queimadas mal geridas para limpeza de pastagens, expansão agrícola e desmatamento nas cabeceiras dos rios que alimentam o bioma figuram entre os fatores mais documentados. Segundo o WWF-Brasil, os raios são responsáveis por apenas 1% dos eventos. O restante deriva de decisões humanas, que interagem com condições climáticas cada vez mais extremas para amplificar os danos.
Os dados de 2024, por exemplo, mostraram que 85,22% da área queimada no Pantanal estava em propriedades privadas, enquanto áreas de conservação e terras indígenas representavam porções menores do total. Esse quadro exige uma abordagem que vai além do combate ao fogo em si e inclui fiscalização, educação ambiental e políticas de uso da terra. Um estudo do Observatório do Clima e de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro concluiu que, em um clima sem o aquecimento global atual, os níveis de incêndio registrados em junho seriam considerados extremamente raros. Ou seja, as mudanças climáticas não apenas amplificam os episódios, como os antecipam no calendário.
O que os mato-grossenses e o país têm a perder com o Pantanal em chamas
O Pantanal é a maior área úmida tropical do planeta e abriga uma das maiores diversidades de fauna do mundo. Para Mato Grosso, ele é também identidade, turismo e equilíbrio hídrico. A destruição do bioma afeta diretamente a qualidade da água, o microclima regional e a atividade econômica de municípios inteiros que dependem do ecoturismo e da pesca. Em escala global, o Pantanal exerce um papel regulador que vai além das fronteiras brasileiras, o que explica por que os incêndios no Centro-Oeste repercutem em acordos ambientais e negociações comerciais internacionais.
O Ministério do Meio Ambiente publicou a portaria nº 1.623/2026, declarando emergência ambiental por risco de incêndios florestais em áreas vulneráveis, e reuniu mais de 80 técnicos e representantes de diferentes esferas de governo para alinhar estratégias de prevenção para este ano. O sinal de alerta está dado. Agora, a disputa é contra o tempo e, principalmente, contra práticas que insistem em colocar o fogo como ferramenta de gestão numa região que já não consegue se recuperar em ritmo suficiente para absorver a próxima estação. O Pantanal vai além de ser um bioma em risco. Ele é um termômetro do que estamos fazendo com o planeta.
Fontes: Agência Brasil | Corpo de Bombeiros de Mato Grosso | Campo Grande News / MapBiomas | WWF-Brasil | Observatório do Clima | Ministério do Meio Ambiente


