IA desenvolvida pelo IFMT transforma celular em aliado contra pragas nas lavouras de Mato Grosso

Alexei Voralen
Por Alexei Voralen 10 Min de leitura
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Tecnologia identifica insetos que atacam soja e milho e cria mapas para ajudar no monitoramento agrícola, inclusive em áreas rurais com conectividade limitada.

Uma pesquisa desenvolvida com participação de pesquisadores do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), em Cuiabá, colocou a inteligência artificial no centro de uma solução voltada a um dos problemas mais importantes do agronegócio mato-grossense: o monitoramento de pragas. O sistema, chamado AgroInsect, utiliza inteligência artificial, visão computacional, geolocalização e processamento diretamente em smartphones para identificar insetos associados às lavouras de soja e milho. O estudo foi publicado em 9 de setembro de 2026 na revista científica Computers and Electronics in Agriculture, periódico internacional especializado em tecnologia aplicada à produção agrícola. (IFMT Cuiabá)

A novidade chama atenção especialmente em Mato Grosso, onde grandes áreas agrícolas e longas distâncias entre propriedades tornam o acompanhamento das lavouras um desafio operacional. A proposta do AgroInsect é permitir que informações sejam coletadas diretamente no campo e transformadas em dados capazes de orientar o monitoramento localizado. Segundo os pesquisadores, a tecnologia foi projetada para funcionar parcialmente no próprio celular, característica que pode ser importante em regiões rurais onde a conexão com a internet não é constante. (IFMT Cuiabá)

Como funciona a inteligência artificial criada com participação do IFMT

O AgroInsect combina inteligência artificial e visão computacional para reconhecer quatro espécies de importância agrícola relacionadas às culturas de soja e milho: Diabrotica speciosa, Dalbulus maidis, Diceraeus spp. e Spodoptera frugiperda. Em termos práticos, a tecnologia utiliza imagens e processamento computacional para auxiliar na identificação dos insetos encontrados durante o trabalho de monitoramento. O objetivo não é simplesmente registrar a presença de uma praga, mas transformar cada observação em uma informação que possa ser relacionada à localização da ocorrência. (IFMT Cuiabá)

Uma das características mais relevantes para a realidade de Mato Grosso é o processamento chamado de “na borda”, realizado no próprio dispositivo. A pesquisa descreve o uso de modelos de aprendizado profundo executados no smartphone, reduzindo a necessidade de enviar todas as informações para um servidor antes de realizar a identificação. Isso abre possibilidade para aplicações em propriedades onde a conectividade é limitada, uma situação especialmente relevante em áreas agrícolas extensas e afastadas dos centros urbanos. (Acesso Aberto BCU)

O sistema também associa os registros à localização geográfica e utiliza análise espacial para produzir mapas de distribuição das pragas. Com isso, a tecnologia pode ajudar a visualizar onde determinados insetos estão concentrados dentro de uma área monitorada, oferecendo uma visão mais detalhada do problema. A pesquisa utiliza técnicas de geostatística para transformar os pontos coletados em informações espaciais, aproximando a inteligência artificial de uma aplicação prática da chamada agricultura de precisão. (Acesso Aberto BCU)

Para o produtor mato-grossense, a principal mudança está na possibilidade de sair de um monitoramento baseado apenas em observações dispersas e avançar para uma coleta organizada de dados. Uma ferramenta desse tipo pode facilitar a identificação de áreas que merecem maior atenção e melhorar o histórico de ocorrências dentro da propriedade. A tecnologia, entretanto, deve ser entendida como apoio ao trabalho técnico de campo, e não como substituição automática da avaliação de agrônomos e demais profissionais responsáveis pelo manejo.

Por que a tecnologia é importante para soja e milho em Mato Grosso

A escolha das culturas não é casual, já que soja e milho estão entre as bases da economia agrícola de Mato Grosso. O estado enfrenta o desafio de produzir em larga escala enquanto precisa lidar com clima, custos de produção, pressão de pragas e necessidade crescente de eficiência no uso de recursos. Nesse cenário, tecnologias capazes de identificar problemas mais rapidamente podem ganhar importância à medida que o produtor busca aumentar produtividade sem depender exclusivamente da expansão da área cultivada.

A pesquisa do IFMT também ocorre em um momento de avanço da agricultura digital no estado. Iniciativas como o AgriHub vêm aproximando produtores, startups e empresas de tecnologia para testar soluções diretamente nas propriedades rurais, com milhares de produtores envolvidos na edição de 2026. Esse movimento mostra que a inovação agrícola em Mato Grosso está deixando de ser apenas uma discussão sobre equipamentos e passando a envolver dados, inteligência artificial, conectividade e plataformas digitais aplicadas a problemas concretos do campo. (M Te Malta)

Outro ponto importante é que a pesquisa foi desenvolvida em parceria entre o IFMT, o Instituto Federal Goiano e a Birmingham City University, no Reino Unido. A publicação internacional reforça a dimensão científica do trabalho e mostra como uma instituição de Mato Grosso participa de uma pesquisa com aplicação voltada a um dos principais setores econômicos do estado. O artigo foi publicado em periódico revisado por pares e apresenta resultados técnicos relacionados à detecção de pragas e à elaboração de mapas espaciais. (Birmingham City University)

Os próprios pesquisadores destacam que a integração entre detecção automática, georreferenciamento e análise espacial pode transformar registros feitos no campo em informações para apoiar o manejo localizado. Isso é especialmente interessante para propriedades de grande extensão, nas quais uma ocorrência de praga pode não representar um problema uniforme em toda a lavoura. A capacidade de visualizar espacialmente os registros pode, portanto, contribuir para decisões mais direcionadas e para uma gestão agrícola baseada em dados.

O que muda para o produtor e para a tecnologia no campo

A novidade não significa que o agricultor possa simplesmente apontar o celular para qualquer inseto e receber uma recomendação definitiva de manejo. O AgroInsect foi desenvolvido para um conjunto específico de pragas e dentro de uma proposta científica de monitoramento, identificação e análise espacial. Antes de transformar uma identificação tecnológica em decisão agronômica, continuam sendo importantes a confirmação técnica, o estágio da cultura, o nível de ocorrência e as demais condições encontradas na propriedade.

O grande potencial está justamente na organização das informações. Em vez de depender somente de anotações isoladas, o produtor pode trabalhar com registros associados a localização e distribuição espacial, criando uma base histórica para acompanhar a evolução das ocorrências. A publicação científica mostra que o sistema também foi avaliado com métodos de interpolação espacial, indicando uma preocupação não apenas com a identificação do inseto, mas com a transformação dos dados pontuais em mapas úteis para análise agrícola. (Acesso Aberto BCU)

Para Mato Grosso, esse tipo de tecnologia também pode fortalecer a participação de universidades e institutos federais no desenvolvimento de soluções para problemas locais. O estado possui uma das maiores áreas agrícolas do país e, por isso, funciona como um ambiente natural para testar ferramentas de agricultura de precisão em condições reais. A aproximação entre pesquisa científica, produtores e empresas de tecnologia pode acelerar a adaptação dessas soluções às características das lavouras mato-grossenses.

A inteligência artificial no campo tende, assim, a ocupar um espaço cada vez mais ligado à tomada de decisões e ao uso eficiente de informações. No caso do AgroInsect, o diferencial está em levar parte dessa capacidade para dentro do smartphone e combinar identificação de pragas com localização geográfica. Para o produtor, o avanço mais importante não é simplesmente ter “IA na lavoura”, mas conseguir transformar uma observação feita no campo em um dado organizado que ajude a compreender melhor o que está acontecendo.

A pesquisa do IFMT mostra que a tecnologia agrícola em Mato Grosso já ultrapassa a ideia de máquinas maiores ou equipamentos mais modernos. O celular pode se transformar em uma ferramenta de coleta e interpretação de dados, enquanto a inteligência artificial ajuda a reconhecer padrões que seriam mais difíceis de organizar manualmente. Com a expansão da conectividade rural e a evolução dos sistemas digitais, soluções desse tipo podem ganhar novas aplicações no monitoramento de lavouras, sempre dependendo de validação técnica e adaptação às necessidades de cada propriedade. (IFMT Cuiabá)

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